Desafio Literário Março – Duplo Diabólico de Peter Ackroyd [1]

Sombra e luz - Luz e sombra

“Da mesma forma , quando os cartesianos e os novos filósofos dizem que seus experimentos são úteis para a tranquilidade e a paz da vida humana, isto é uma grande mentira: não tem havido tranquilidade e nunca haverá paz. As ruas por onde andam são as mesmas em que crianças morrem diariamente ou são enforcadas porque roubam alguns tostões; eles querem assentar uma base sólida (ou assim a chamam) para sua vasta pilha de experimentos, porém a base está cheia de cadáveres putrefatos ou em via de apodrecer.”

Duplo Diabólico – Peter Ackroyd

Ai pai, onde eu fui parar dessa vez?

No mês dos assassinos em série, preparei uma surpresa e tentei ler um livro que ninguém leria. Deparei-me com a obra de Peter Ackroyd, mas não sei como saí dela.

Duplo Diabólico tem uma premissa simples: duas pessoas separadas por séculos estão interligadas em uma verdade fundamental. Super simples, não é?

Nicholas Dyer, em 1711, um arquiteto sombrio, é o responsável pela construção de novas igrejas. Um dia decide vingar-se da humanidade que lhe trouxe sofrimentos fazendo com que os alicerces de suas obras estejam banhados em sangue. Para tal ato, utiliza sacrifícios de mendigos e crianças. Usa desses assassinatos para controlar o mal, pois acredita que apenas com a violência e maldade pode conter a ira do demônio. Nick, durante toda a narrativa nega os ideais do iluminismo, renegando também, qualquer pensamento científico.

E algo que fica evidente na trama é a ditadura da racionalidade que permeia os seres pertencentes ao iluminismo. Como se só existisse a razão e qualquer crença poderia levar um ser humano normal aos manicômios da Inglaterra. Nunca pensei no iluminismo como uma vertente do pensamento tão opressora, não sei até que ponto isso existiu na história real, ou se passou apenas na cabeça delirante do assassino (ou na cabeça do autor).

Essa parte é a primeira do livro, a mais difícil em minha opinião. A narrativa arcaica, as descrições da morte e as sombras são nauseantes, causando ao leitor desconforto. Eu tive que parar várias vezes para que minha cabeça pudesse encontrar a luz novamente. Durante todo o processo senti-me perdida, como que mergulhada na cabeça doentia do personagem que sem dó me levava para um fosso com corpos em decomposição. Nojento, fétido e obscuro são as palavras que definem Dyer e toda sua narrativa.

Uma curiosidade é que os arquitetos, desenhistas ou fotógrafos trabalham constantemente com sombras. Mas foi a primeira história que trouxe essa obsessão pelo contraste, partida de um desses profissionais, gerando um assassino. Gostei disso.

Na segunda parte estamos no século XX, no momento em que misteriosos assassinatos de crianças e mendigos ocorrem nas mesmas igrejas, fazendo com que o detetive Hawksmoor seja encarregado da investigação para capturar esse estranho serial killer. Mas os mistérios se tornam maiores, a verdade também, e esse homem comum entra em uma trama de sua própria natureza desconhecida.

O livro se baseia em repetições: a última palavra de um capítulo é a primeira do capítulo posterior. Todos os nomes são os mesmos, seja na obscura história de Dyer, ou na contemporânea de Hawksmoor. E tudo isso faz com que o leitor viva um Déjà vu dentro de uma reflexão.

Muito mais do que uma estória sobre um assassino, o autor cria uma dualidade, um estudo sobre o comportamento humano.

Não é uma obra fácil de ser lida. Cansativa, confusa (talvez pela tradução) e nem um pouco linear. Mas qual livro,que traz ao leitor uma profunda meditação sobre a natureza do tempo e do acaso*, seria um deleite?

 

* Retirado da sinopse do livro.

* Curiosidade: Esse livro foi considerado um dos melhores dos anos 80 pela crítica britânica.


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Sobre Karla Kly

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17 respostas para Desafio Literário Março – Duplo Diabólico de Peter Ackroyd [1]

  1. Mione disse:

    Deve ser sido um grande desafio essa leitura, mas tua resenha me despertou o interesse.. Um dia acho que vou encarar 😛

    • Karla Kly disse:

      É interessante, eu recomendo a leitura. Apesar de ser um “desafio” , ainda assim me prendeu… E leia sim, o bom é que eu paguei 5 reais em um sebo rs 🙂
      bjs!

  2. Luma Kimura disse:

    Nunca tinha ouvido falar nesta obra antes, parece mesmo ter sido um verdadeiro desafio. Fiquei bastante interessada, gosto dessas narrativas fortes com personalidade, vou anotar para uma leitura futura. 😉

    • Karla Kly disse:

      Luma, é forte e bem confuso. Mas vale a pena sim. Eu fiquei bem perdida pois esperava um enredo bem mais simples.
      Enfim, leia!
      Obrigada pela visita 🙂

  3. Michelle disse:

    Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas parece interessante. Apesar de parecer bem complexo, gostei dos pontos que você destacou: estilo diferenciado, com déjà vu, reflexões iluministas e uso das sombras na literatura. Acho que Dexter deve ser bem mais simples e, até onde eu sei, dizem que a história é bem fiel aos episódios da série de TV.
    Boa sorte!

    • Karla Kly disse:

      Eu me perdi um pouco sabe? Tive que parar , ler, reler… acho que em alguns pontos a tradução foi bem falha… Mas é um livro antigo, não tem novas traduções nem nada. Vale a pena, talvez por ser bem diferenciado.
      É… eu adoro a série, acho que vou gostar do livro, e mesmo não conseguindo, vou tentar não comparar tanto.
      Bjs!

  4. rodrygotnk disse:

    Gente! Que leitura complicada… foi este que você havia comentado quando eu estava em Curitiba?

    E Karla, estou participando do desafio 7 clássicos! Obrigado pela recomendação!!

    • Karla Kly disse:

      Acho que o livro que eu te falei era o 2666 do Roberto Bolaño (não, não é o Chaves), mas não tenho certeza. Livro tenso, muito tenso, com mais de 1000 páginas. Uma boa pedida, já que vc está no DL também…

  5. Mione disse:

    Karla! Deixei outro selinho pra ti no meu outro blog 🙂
    (vou te entupir de selinhos hahaha)

    http://1001filmesantesde2012.blogspot.com/

    beijo!

  6. Mione disse:

    Olha, até que não é má idéia hein! hahaha
    De repente a gente conversa sobre isso e saia um projeto em grupo… Aproveito pra dar andamento no meu projeto de 1001 filmes, porque tá crítica a situação xD
    eu e minhas listas 😛

    10 filmes por mês? e fazer por temas, como no DL? Eu topo 😀
    E como estáriamos em parceria, poderíamos sortear alguma coisa no fim do mês, coisa boba, tipo poster de filme, essas coisas xD

    beeijo!

    • Karla Kly disse:

      10 por mês!? tá doida? hahahha
      Olha até uns 3 ou 4 eu consigo…mas sim, ou por tema ou por diretor. Acho que seria bemmm legal 🙂
      E é uma boa a ideia do sorteio, eu tenho alguns posteres em casa, de filmes antigos. 🙂

  7. Pelo o que você conta, parece-me um livro escrito com um viés de experimentalismo. Parece-me até mesmo engenhoso da parte do autor incutir no leitor a sensação de desconforto. Não é algo fácil de conseguir. Se eu fosse um tiquinho assim mais corajosa, eu o leria.

    • Karla Kly disse:

      Vivi, eu pensei também no experimentalismo. Durante a narrativa parece que você está sonhando, e que tudo faz sentido, mas você acorda e não lembra de mais nada. Um livro bom, porém não sei se eu tenho coragem para encarar mais alguma coisa do autor…rs

      Beijos!

  8. Júlia disse:

    Oi, Karla,
    Você se propôs um belo desafio para o desafio deste mês, não?!
    O que me pareceu mais interessante na obra foi isso de a palavra que acaba um capítulo ser a mesma que começa o próximo. Que exercício para o autor!
    Onde você descobriu esta obra?
    bj

    • Karla Kly disse:

      Júlia, muitas vezes o autor coloca a mesma expressão também. Tudo é sobre repetições.
      Encontrei folheando o 1001 livros, achei que se encaixaria no tema e deu certinho…

      Obrigada pela visita 🙂

  9. Andréa Mello disse:

    Pois sim, eu também encontrei num sebo. E na tentativa de entendê-lo melhor, vim fazer pesquisas na net… Gosto da obra. Na verdade acredito que o adquiri e li há mais de uma década, e tive vontade reler. E não acredito que outras pessoas o tenham lido, é uma daquelas coisas brilhantes e bizarras que não aparecem na mídia.

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