Desafio Literário (Fevereiro) – Nietotchka Niezvanova

Achei que não iria dar tempo, comecei a ler esse romance no dia 23 de janeiro , li algumas páginas, mas larguei por um bom tempo. Peguei no dia 30 de novo e depois de um dia terminei a obra. Achei que seria difícil, mas encontrei uma história tão cativante e de tamanho sentimento que as horas voaram e as páginas também. E cá estamos no dia 1 de fevereiro com a resenha pronta.

E fevereiro é o mês dos nomes, e diante do vasto leque de escolhas, optei pelo romance “Niétotchka Niezvânova” do grande escritor russo Fiódor Dostoiévski. Caro leitor, se você tem um coração fraco , não leia esse livro.

Atualmente tenho me entretido com leituras leves, muito pouco profundas, motivo pelo qual meu choque foi gigantesco quando me deparei com a obra de Dostoiévski. Uma reflexão em 219 páginas, puramente baseada nos sentimentos de Ana Niezvânova, chamada carinhosamente por Niétotchka, que em russo faz alusão à expressão “criatura sem nome”. Essa relação faz parte do tema que o autor pretende descrever que engloba as pessoas abandonadas e desprotegidas.

E Niétotchka é exatamente a imagem do abandono e desprezo. Abandonada e subjulgada por todos que a cercam ela resolve contar sua estória. Relembrando sua vida, nos conduz pela sua infância pobre, à morte dos pais, às casas que passou como órfã ,e à revelação de um mistério, seguido então, pelo término de forma abrupta , afinal trata-se de um romance inacabado. Apresenta grandes falhas de enredo, passagens desnecessárias e personagens ainda não prontos , e tudo isso não prejudica em nada a grandiosidade da obra.

Mas onde estaria tamanha grandiosidade, sendo que o enredo e conclusão são falhas?

Na psicanálise.

Dostoiévski consegue fazer uma prenuncia das teorias de Sigmund Freud que viriam a ser elaboradas anos após o romance. Exemplo disso temos o amor  nada infantil que a menina nutre pelo padrasto, a descoberta do amor que beira ao erótico na infância, os traumas do abandono e como a mistura desses fatores define quem a personagem deverá se tornar. Além disso, as mulheres apresentam traços de histeria muito parecidos com os descritos no caso de Anna O por Freud.

Tudo isso é muito comum para a nossa época, pois já temos uma ideia fixa que a infância contribui para a definição do caráter do individuo. Mas relembrem amigos, Dostoiévski escreveu isso antes de ser uma teoria conhecida.

Fora as teorias da psicanálise, outra coisa ficou em minha cabeça. E nesse momento peço desculpas aos literatos, pois essa visão não é técnica, mas sim, estritamente pessoal.

O padrasto de Ana, Iefimov, que recebe grande atenção no início da obra, apresenta uma certa qualidade : O talento.

E com ele também seu defeito que o leva a sua desgraça. Na ânsia de ser reconhecido pelo seu dom e ser o melhor, o gênio acaba por não realizar grande feitos. É excêntrico e não tem paciência para conquistar o sucesso, além de reclamar de tudo da vida e não conseguir ficar em qualquer emprego. Ama sua arte e apenas sua arte. Lembro-me da passagem que mostra seu contato com o violino, por qual tem grande paixão, mas nunca sai da caixa, passando anos sem dedilhar suas cordas. Parece que esse homem tem medo de desenvolver sua habilidade e descobrir que não é excepcional, e sim, apenas mediano.

Trouxe-me aquele sentimento de sermos bom em algo, mas ao mesmo tempo o temor de não sermos os melhores. Uma reflexão que parece ter acompanhado o autor nos seus escritos. ( E eu na leitura, afinal quem nunca deixou algo por medo de não ser o melhor?)

Para mim, essa figura traz um pouco do próprio Dostoiévski , que sente-se testado por seu talento constantemente, e análisa sua vida, culpando os ocorridos e ao mesmo tempo satirizando sua própria condição de vítima, já que na época que escreveu o Niétotchka Niezvânova estava preso na Sibéria, em sua própria pobreza e má sorte.

O livro foi ums ótima escolha e pretendo ler mais algumas vezes, pois a descrição dos sentimentos é tão complexa que fica impossível entender com uma primeira leitura.

Com certeza seria uma obra extensa caso o autor a tivesse concluído. Julgo que poderia ser até mesmo melhor que “Os irmãos Karamazov”. Talvez Freud diria que Niétotchka Niezvânova é o melhor romance da história. Mas tudo isso são suposições e a verdade nunca saberemos. E cabe ao leitor continuar essa história/estória, em sua cabeça,com seus próprios traumas , da maneira que lhe parecer conveniente.

E para quem gosta de uma reflexão, esse livro é o nome e sobrenome da complexidade.

Obs:  Nunca vi uma descrição do som de um violino tão bem feita como nesse livro. O  pranto lastimoso, o grito quase humano que antecede o final da música, simplesmente me fez ouvir o som. Perfeito casamento entre o instrumento com o momento que o livro descreve que é quando o padrasto finalmente cai em sua loucura.

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Sobre Karla Kly

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25 respostas para Desafio Literário (Fevereiro) – Nietotchka Niezvanova

  1. Não conhecia esse livro de Dostoiévski, mas com a sua resenha fiquei realmente tentada a ler. Talvez ainda em fevereiro, apesar de eu já ter dois nomes pra ler aqui na minha mesa haha.

    Ótima resenha MESMO, e nem preciso dizer que, pelo jeito, a escolha da obra também foi excelente.

    • Karla Kly disse:

      Letícia, vale muito a pena mesmo. Como eu disse, é um livro inacabado, mas pela época que foi escrito merece uma atenção especial. E é engraçado que é um livro um tanto desconhecido ainda.
      Obrigada pelo elogio! volte sempre! 🙂

  2. maylleechan disse:

    Nossa! Gostei da resenha! Fiquei curiosa pela leitura!
    Espiei alguns posts, gostei do seu blog! ^_~

  3. Ótima resenha! Li esse livro há um tempo e ele definitivamente merece uma releitura.

  4. Mione disse:

    Gente, que resenha ótima! não conhecia esse livro, mas me deu muita vontade de ler. Pra falar a verdade, só li notas do subsolo dele, e adorei. Se eu tivesse ele na minha estante agora eu leria pro desafio, pena que não tenho :\

    beijo!

    • Karla Kly disse:

      Mione, o mais legal do desafio literário acho que é isso, acabamos por conhecer novas obras e nos animamos com a leitura de coisas diferentes. Exemplo disso foi o Frankenstein que eu li no seu blog. Nunca achei que gostaria de ler a obra e agora se tivesse tb leria pro desafio.
      bjs!

  5. Este livro de Dostoiévski, não conhecia e olhar que já trabalhei com vários textos dele. Vou procurar . Ótima resenha ABs

  6. Uma pena eu não poder ler este livro

    • Karla Kly disse:

      Mas não pode ler pq? para o desafio ou na vida mesmo rs? bjs!

      • Pois tenho um coração fraco.
        Estava torcendo pra você não responder, assim lhe pouparia de tal piada infâme lol
        Como você escreve bem, gostei muito. Vou incluir na lista para leituras futuras.
        Nunca li Dostoiévski, apesar de ter Os Irmãos Karamazov em casa. Eu até poderia lê-lo, não fosse o fato de que estou lendo Christine do Stephen King para o DL também. Livro grande e de letras miúdas, minha miopia agradece.
        Deu uma passada geral no seu blog e gostei bastante. Depois leio tudo com mais calma.
        Beijão.

      • Karla Kly disse:

        Nem se preocupe, piadas infames , a gente vê por aqui hahahahaha
        E nossa, nem me fale. Quando pego algum livro com letrinhas miúdas…. dá vontade de ligar pra editora e dizer: eu leria mais 1000 páginas, mas vê se aumenta essa fonte!
        Os irmãos Karamazov é um livro fantástico, acho que Freud tinha uma paixão especial pelo livro, mas eu ainda tenho como favorito o bom e velho crime e castigo.
        Volte sempre 🙂 e obrigada pelos elogios bjs

      • Reiner disse:

        hahahahah eu ri da resposta do Eduardo kkkkkkkk mas vou ficar com ele, tenho coração fraco também 😀

        Nunca li livros do Dostoiévski vou dá uma olhada para ver se gosto, já que é pequeno em tamanho em grande em conteúdo, talvez não de tempo nesse DL, mas vou tentar 😀

      • Karla Kly disse:

        Ai esse meninos de coração fraco viu, só por favor não caiam na histeria de Anna O. Eu mesmo depois que li o livro fiquei morrendo de vontade de ter uma crise nervosa com febres…rs
        Reiner, eu talvez não começaria por esse livro para conhecer otrabalho do autor…ele é muito incompleto e falho…
        Quando lemos algo pela primeira vez é melhor que seja algo inteiro, se vc me entende.
        E obrigada pelo elogio, mas quem merece tudo isso é o próprio Dostoiévski, que é um verdadeiro gênio. Mas obrigada e volte sempre (nossa super frase mc donalds) hahahahaha
        Beijão!

  7. Reiner disse:

    Aproveitando, que resenha bem feita, realmente deu vontade de ler a obra, apesar de não ser fã do gênero. parabéns 😀

  8. Larissa disse:

    Eu vou ser óbvia aqui ao dizer que você é uma excelente escritora e que esta é uma das melhores resenhas que eu já li. Duvido que alguém não concorde comigo. Eu ainda não me aventurei a ler Dostoiévski, quando o fizer provavelmente começarei pelos mais conhecidos “Irmãos Karamazov” e “Crime e Castigo”. Mas a vontade que fiquei de ler “Niétotchka Niezvânova” é grande. Parabéns! Tô pensando aqui que não lembro de ter lido resenhas suas para o mês de janeiro… Vou procurar.

    Bjs!

    • Karla Kly disse:

      Larissa, muito obrigada pelo elogio, fiquei até sem graça rs
      Leia sim Dostoiévski, é um escritor que sabe mexer muito bem com o interior humano. Não é uma leitura rápida e eu não considero fácil, pois envolve sentimentos que nós não temos consciência ou tentamos não analisar em nós mesmos.
      Crime e Castigo é um clássico por envolver a questão até mesmo jurídica, e também, por mostrar a justiça na Rússia. Engraçado é notar que como na maioria dos autores eslavos, nunca se tem muito controle da própria vida, você só senta e espera a justiça acontecer. Não tem muito aquela coisa auto-ajuda que estamos acostumados que podemos mudar tudo. mas enfim, leia rs
      E obrigada de novo pelo elogio fiquei muito feliz em ler seu comentário! 🙂

  9. Ana disse:

    meu coração não é fraco, aguento ler, li Crime e Castigo que tem o triplo de páginas deste e um personagem tão difícil quanto. Eu vou encarar, tomara que quando estiver lendo, ninguém me pergunte o nome do livro que não vou saber falar esse palavrão aí não.

    • Karla Kly disse:

      Ana é verdade, todos os personagem do autor seguem essa linha problema. E o nome é difícil mesmo qualquer coisa fala Ana ao invés de Niétotchka rs.
      Volte sempre por aqui 🙂

  10. Juliana disse:

    Acho que vou amar esse livro quando lê-lo!! E você escreve muito bem, parabéns!!!
    Criei um blog há menos de um mês, ficarei infinitamente feliz se você puder visitá-lo e, quem sabe, segui-lo e comentar em alguma postagem (entrepalcoselivros.blogspot.com)! Ótima semana pra você! 🙂

  11. Impossível sair incólume de uma leitura de Dostoiévski. Bela resenha!

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